[Tá No Mundo] O lançamento da vez é o disco ‘O Abre Caminhos’ da dupla Fogo Pagô


As plataformas de música já disponibilizaram o disco “O Abre Caminhos” da dupla baiana Fogo Pagô, desde o último 2 de abril. As meninas têm 20 anos e se encontraram musicalmente 4 anos atrás, ainda na escola. Letícia Peixinho é feirense, estudante de Letras com Inglês  (UEFS), cantora, compositora e arranjadora. Iniciou sua relação com as manifestações artísticas desde pequena, principalmente por conta das brincadeiras em casa e da influência da família, com raízes no sertão da Bahia (Uauá) e, por isso, traz para o duo as referências da musicalidade do sertão. 

Maiara do Carmo (Carmiru) é do recôncavo baiano, de Santo Amaro da Purificação, onde viveu até seus 13 anos. Estudante de psicologia, compositora, arranjadora, cantora e violonista. Acredita que toda a construção da sua sensibilidade e consciência musical vem das tradições do samba de Santo Amaro, da música dos manguezais e da beira do rio, de onde vêm a maior inspiração para as composições da dupla.

Aqui, você vai acompanhar a entrevista que as artistas deram ao Culturasss


Por Lorena Porto

Mesmo com o privilégio de ter acompanhado parte do processo de produção do primeiro disco “darmenina” da Fogo Pagô, de ter conhecido algumas cantigas ainda na sua bruteza, ouvi-las pelo streaming teve ainda mais gosto de água do rio e cheiro de sertão. E água de rio tem gosto, Lore? Se você não sente, perdão, eu sinto. A natureza cíclica, orgânica e instintiva dessa obra é tão forte que me levou a preparar um verdadeiro ritual em casa antes de dar o play. Foi num sábado, casa vazia, passei pano no chão com alfazema, acendi os incensos de arruda e alecrim, as velas de Oxum e Oxalá, equalizei os graves, senti a respiração acessando tudo aqui dentro e pronta.

As sensações com essa escuta eu nem dou conta de detalhar aqui. Mas eu posso dizer que acertei em me preparar com carinho antes de dar o play. Ouvir “O Abre Caminhos” é essencialmente isto pra mim: um ritual, sagrado, feminino, necessário a todes. "A bruxa tá solta e eu só quero um banho de cachoeira..."

Lorena - Meninas, como foi o processo de criação de “O Abre Caminhos”?

Fogo Pagô - Esse disco foi pensado quase inteiro durante a pandemia (exceto a faixa “Mães Terra”). Então, eu acho que, no fundo, ele fala sobre uma agonia de dentro, de se buscar na natureza, de retomar essa troca de cura da gente com a terra. Ideias que até o próprio Ailton Krenak encaminha em seu livro “Ideias Para Adiar o Fim do Mundo’’, que eu estava lendo durante o começo da pandemia e sinto que, de algum jeito, isso pode ter influenciado nossa construção. (Carmiru) 

O disco se constrói como o ciclo dos 5 elementos (terra, fogo, água, ar e éter), começando em éter, passando por todos os elementos e terminando em éter novamente, que também lembra as movimentações cíclicas da terra. Mas é um passeio pelas águas do sertão ao recôncavo e o imaginário da cultura popular de Uauá (BA) e Santo Amaro (BA), nossas principais referências de musicalidade e vivências. É uma reunião de histórias que a gente criou, outras que a gente se inspirou, mas, principalmente, a tentativa de expressar as movimentações desses dois lugares, criando algo que fosse parecido com a forma que a gente concebe o mundo e a música. (Letícia)

Lorena - E esse nome, de onde vem? 

Fogo Pagô - A ideia do nome veio quando a gente começou a pensar na experiência de se envolver tão intensamente em um projeto musical que faria a gente se descobrir como artistas, entender nossas movimentações e quem somos também. Por isso esse nome, porque  “O Abre Caminhos” é o nosso portal de passagem para esse entendimento atualizado de quem somos e como vemos o mundo. (Carmiru)

Lorena - Como foi o processo de gravação em plena pandemia?

Fogo Pagô - O disco foi gravado em Capim Grosso, interior da Bahia, por Kelvin Diniz. A gente buscou uma roça, um lugar aberto, para que os músicos pudessem se hospedar junto da gente, só que garantindo o distanciamento que é tão importante nesse momento crítico de pandemia. Isso favoreceu a circulação melhor da equipe e ajudou muito na vivência e fluidez do disco, por causa do contato com a natureza (que é quem rege o disco). Contamos com a participação de Ludmilla Dourado e dos músicos Daniel Penha, Bel da Bonita, Igor Liô, Rafael Mendes, Kelvin Diniz, Manoel Dionísio, Alvin Soares e Fatel. (Letícia)

Lorena - Qual a música preferida de vocês? Será que tem? 

Fogo Pagô - Oxe... difícil demais escolher uma! kkkk Conversamos aqui e entramos em consenso sobre "A Mensageira", "Índigo", "Zum Zum"… É um sentir diferente que cada uma causa. (Letícia)


Lorena - Eu queria conhecer melhor a linha do tempo de vocês, pode ser? 

Fogo Pagô - Claro. Nós estamos completando quatro anos com esse projeto. Depois que nos conhecemos, em 2014, começamos a cantar em shows de talentos da escola, em festas e feiras universitárias. A gente sente que nosso ponto de partida mesmo foi na primeira apresentação pública, na Feira Coletiva “Mulheres que Fazem Arte’’, em 2018. Em 2019, integramos a banda de forró e samba, “Muçambê”, de formação totalmente feminina. Aí veio a pandemia em 2020 e, forçadamente, acabamos entrando num período de maior introspecção, mas os canais de possibilidades pra gente pareciam mais abertos. Foi daí que começaram a surgir as primeiras composições desse disco. No meio do ano, decidimos iniciar nosso planejamento e gravamos dois singles para ter como material de envio para editais. (Letícia)

Nesse contexto, fomos aprovadas no 28º Festival de Música da Educadora FM, com a música ‘’Boca de Peixe’’, e recebemos a premiação na categoria “Música Mais Votada Pelo Público’’. Com essa cantiga também fomos aprovadas no Festival Funarte Respirarte e pudemos gravar nosso primeiro videoclipe. Agora, já em 2021, inscrevemos o projeto de nosso primeiro disco, a tiragem física dele e também a gravação de um videoclipe no edital municipal pela Lei Aldir Aldir Blanc e conseguimos concretizar o “O Abre Caminhos”. (Carmiru)

Lorena - Meninas, e o nome Fogo Pagô, porque essa mudança já que vocês eram “Amarelo Angatu” quando ganharam o Prêmio da Rádio Educadora?

Fogo Pagô - Com o amadurecimento das ideias, dos projetos e, principalmente, da nossa musicalidade, a gente foi sentindo vontade de fazer nascer um nome que dissesse mais sobre quem a gente era e quem queríamos ser. Fogo Pagô é um pássaro de canto conhecido aqui pelo nordeste, mas que não é tão fácil de ser visto pelo meio das árvores. O canto chega primeiro. De longe, se ouve a força do canto de um fogo pagô, mas nem sempre se vê. Esse nome surgiu um dia numa ligação entre nós duas, quando o pai de Leti passou no fundo brincando com uma flauta e imitando o canto. A gente só arregalou os olhos e começamos a gritar: “achamos nosso nome!” 

Lorena - E daqui pra frente, meninas?

Fogo Pagô - Agora é trabalhar para o disco ganhar força, ir passeando pelas águas do mundo e chegar em quem tiver que chegar, em quem quiser sentir. A gente está cheia de ideias pra um monte de coisa, mas viver no passinho de cada vez é gostoso também. Acho que nosso principal plano é entender e se fortalecer dentro da cena musical. 

Acho que esse projeto já é a porta de entrada para o nosso próprio entendimento como artistas, que na verdade era a coisa que a gente mais esperava. Se enxergar como manifestantes da arte de nós mesmas. Para mais que isso, acho que hoje nossa principal ideia é continuar juntando artistas do interior da Bahia e fortalecer essas movimentações, principalmente aquelas produzidas por mulheres. 


Ficha Técnica do disco “O Abre Caminhos”

Letícia Peixinho: voz e violão 

Maiara do Carmo: vozes, violão, controlador 

Ludmilla Dourado: voz (participação em “Música do Rio”)

Daniel Penha da Quixabeira: violão, cavaquinho, voz

Bel da Bonita: percussão e efeitos

Kelvin Diniz: sanfona, alfaia, caixa, percussão, triângulo, controlador 

Igor Liô: violão, pífano, efeitos de sopro 

Manel Dionísio: contrabaixo

Alvin Soares: contrabaixo 

Fatel: voz, guitarra

Rafael Mendes: sanfona, efeitos de sopro e percussão e voz 

Produção Musical: uma produção coletiva da dupla com Daniel Penha da Quixabeira e Kelvin Diniz 

Produção Executiva: Leonardo Miranda e Ludmilla Dourado 

Arte de Capa: Maiara do Carmo 

Arte da Contracapa: Liu Olivina

Artes do encarte: Vitória Magalhães, Mariana Moura, Maria de Fátima Peixinho, Leticia Peixinho, Liu Olivina

Fotografia: Victoria Nask 

Arte e Design: Talita Medeiros 

Assessoria de Imprensa: Lorena Porto

Gravação, Mixagem e Masterização: Diniz H.Studio (Kelvin Diniz) 


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