CAMINHOS DA PRINCESA : OBRA QUE TRATA SOBRE PATRIMÔNIO , FESTAS E ARTE FEIRENSE


O discurso de que "Feira de Santana não tem patrimônio, é uma cidade sem cultura e se restringe apenas ao comércio" é desconstruído quando se lê a obra que, entre outros historiadores, conta com Carlos Alberto Alves Lima,ir Miranice Morea da Silva e Renan Pinto de Oliveira como autores e propositores de uma reflexão sobre o tripé Patrimônio-Festas-Artes. Caminhos da Princesa busca apresentar o patrimônio material e imaterial aos filhos adotivos dessa Princesa e levar à discussão a importância da preservação daquilo que representa nossa cultura, arte e história.

Se identificando como militantes da história de Feira de Santana no Bom Dia Feira, Carlos Lima afirma que uma das responsabilidades dos autores é justamente trazer para o grande público uma parte da história da cidade, fator que deu origem ao livro. "Feira tem história, memória, patrimônio e esses três pontos contribuem para a identidade do feirense, então a obra Caminhos da Princesa - Patrimônios, Festas e Artes visa trazer a contribuição para um público que muitas vezes desconhece grande parte dessa história", explica.

O livro de 2018 é o segundo da editora Na Carona, fundada por feirenses e que tem como principal objetivo divulgar a produção histórica sobre Feira de Santana. A primeira obra, voltado para o público infantil e que, no intervalo de um ano, chegou a quase 3 mil exemplares, foi lançado em 18 de setembro de 2017, data em que se comemora o aniversário de "Feira - uma cidade Princesa". Por sua vez, "Caminhos da Princesa" busca alcançar em maior proporção o público infanto-juvenil.

O lançamento oficial do livro, que contou com apoio cultural do restaurante Primeira Opção, Gasparzinho Turismo e Instituto Barros de Educação, será do dia 29 de novembro a 02 de dezembro, no Shoping Boulevard, com roda de bate papo entre autores e ilustrador sobre a história de Feira de Santana, sessão de autógrafos e esclarecimentos.

O patrimônio Micareta 

Miranice Silva escreveu um capítulo sobre a micareta de Feira, fonte de suas pesquisas desde a graduação até o doutorado em que se encontra. "Uma  das coisas que mais causa curiosidade entre as pessoas é que muitas não sabiam que existia o carnaval em Feira de Santana, elas acham que sempre existiu a micareta. No texto eu trago essa curiosidade de como a cidade começa sua experiência carnavalesca, a partir do carnaval, no período de fevereiro e depois muda para a micareta, inventando uma nova forma de festejar", comenta no programa.

Para Miranice, Feira de Santana ressignifica a micareta mundialmente. "Foi essa cidade que lançou para o mundo essa forma de carnavalizar que é a micareta, 'a festa de abril que sacode o Brasil'. Isso era divulgado em todo o país de forma muito forte e movimentava a cidade. Feira começou com o carnaval, que foi ressignificado na invenção da micareta para festejar e lança esse carnaval fora de época para o mundo. A cidade inova e institucionaliza essa coisa de festejar para além dos dias de carnaval que teria, por história, o seu limite na quaresma", relata.

"A micareta é nossa, mas também é do mundo, consegue mostrar para as pessoas como monta um pacote festivo que vai para o mundo inteiro. Depois de Feira de Santana cidades do Brasil todo começam a se apropriar disso e ter festa carnavalesca durante todo o ano", ressalta ao lembrar o mote "A primeira Micareta do Brasil" que passou a ser trabalhada na década de 70 - época do Feira Tênis Club, do Clube de Campo Cajoeiro, dos blocos. "A SETUR, na época, divulgava cartazes para o Brasil inteiro com esse slogan, porque a micareta não sacudia apenas Feira, mas o país inteiro, atraindo gente para cá".

Segundo ela, na década de 80 várias celebridades, artista da televisão e do rádio, vinham para a cidade para festejar. "O Vicínius de Moraes, por exemplo, esteve na abertura do Clube de Campo Cajoeiro - temos uma carta em que ele agradece o Olímpio, grande comerciante da época, o convite", exemplificou. 

A historiadora defende em seus estudos e no texto como a micareta se expande e por esse motivo, revela a cidade. "Se formos para mais longe no tempo, vamos descobrir que a primeira micareta era na Rua da Direita - atual Conselheiro Franco, na década de 30, de onde sai em direção para a Senhor dos Passos, com ruas mais largas para comportar trios na década de 70, quando a festa foi municipalizada e a prefeitura toma posse, fazendo parte do orçamento público da cidade. Sempre existiu o espaço privado e o espaço público de rua para a festa.  Desde o início já tinha as filarmônicas 25 de Março, Vitória, Euterpe ocupados durante a micareta também e na expansão dos clubes, teve o Feira Tênis Club na década de 40, acompanhando um movimento nacional, e depois o Clube de Campo Cajoeiro", conta.

Para Miranice é normal que exista uma discussão permanente para realização e pela mudança de ares da festa. "Essa coisa de movimento é caracteristico da micareta porque  a festa representa uma cidade e acontece de acordo com o que a cidade propõe. Todo ano após a micareta se pensa se é conveniente que a micareta permaneça no lugar porque é preciso que ela mude e caminhe pela cidade, como uma característica da festa desde sempre. Ela sempre se movimentou e ao se movimentar ela revela essa cidade para quem chega. Ela revela a Conselheiro, depois a Senhor dos Passos, depois vai para a Presidente Dutra e a questão é, essa avenida ainda é conveniente para a micareta? como a micareta é uma construção das pessoas da cidade, elas têm que discutir sobre e perceber qual o lugar mais adequado para que a festa exista e faça sentido para as pessoas que fazem a festa", considera.

A autora defende que Feira pode não ter inventado a micareta, já que existem registros em outras cidades a exemplo de Jacobina, mas inventa uma forma de festejar que nenhuma outra inventou, tornando a prática regular e sobrepondo o carnaval, até então maior prática carnavalesca da cidade. "Ela ressignifica a festa de uma forma que ninguém conseguiu. Nos outros lugares poderia existir essa prática, só que era esporádica, um ou dois duas durante a quaresma", pontua.

As Festas religiosas

Por sua vez, Renan Oliveira comenta a presença das festas de cunho religioso ao longo da história da cidade desde o século XX.  Ele escreve capítulos relacionados ao Bando Anunciador  e a Lavagem da Lenha, revelando  que estas  eram expressões populares que aconteciam para além dos muros da igreja, levando celebração às ruas. "Os participantes, tanto do Bando quanto da Lavagem, levavam nos seus corpos a expressão de fé para além da ritualistica dentro das igrejas - isso era feito aatravés de fantasias em um momento em que todos podiam afroxar as complicações do dia a dia em momentos de curtição, como em um grande carnaval", aponta durante esta segunda (19).

O Bando Anunciador, que foi recentemente reestruturado e assumido atualmente pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), não está mais vinculado diretamente à Igreja e acontece como uma expressão cultural reavivada. "A expressão religiosa tem espaço para a festa profana que também tem um lugar e uma conexão com a fé através da expressão corporal. Além da festa religiosa, tinha expressões culturais profana - o Bando, Lavagem e ainda Levagens da Lenha", afirma Renan. 

"O Bando mudou muito. Foi extinto na década de 80 e vem ressurgir quase 30 anos depois. No início do século XX, ele vinha para anunciar a festa de Sant'Anna apresentando inclusive a estrutura e programação que durava cerca de 30 dias; a medida que isso vai passando na década de 50, 70 e 80, a festa vai reduzindo a 15 e chegando à 8 dias, tendo uma estrutura muito diferente do que era anteriormente", fala a cerca da passagem no tempo.

As artes em patrimônios que não existem mais

A parte do livro que fala sobre a questão das artes foi escrita pela historiadora Aline Aguiar, que discute como se dava o cotidiano do lazer em Feira de Santana no determinado momento entre as décadas de 40 e 60. "Ela trás à tona a importância do CineTeatro Santana como divulgador da cultura feirense, principalmente de grupos de teatro como o Taborda, que tinha participação de Margarida e Luciano Ribeiro, discutindo também a presença dos primeiros circos que circularam na cidade, além da importância dos cinemas e suas programações em Feira de Santana. Discute a ideia de sociabilidade, sobre como as pessoas se apropriavam do centro da cidade para buscar lazer, como eram construídas as matinês, em especial no Cine Íris, então é uma discussão que mostra a arte e também o patrimônio, alguns deles que não existem mais enquanto prédios materiais", sintetiza Carlos Lima. 



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