{Persona} NÍVIA MARIA VASCONCELLOS E A LITERATURA

Por Lorena Porto, contato@lorenaporto.com.br

A poeta apaixonante Nívia Maria Vasconcellos é pauta da nossa coluna de personalidades desta semana. Doutoranda em literatura brasileira pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), ela está muito além do seu currículo lattes. Quem chega perto de Nívia, volta para o seu mundo (no mínimo) instigado a buscar novas leituras e (quase sempre) encantado por literatura. Aqui registro, portanto, um pouco da entrevista que ela concedeu à equipe do Coletivo Culturas, uma história que ninguém apaga, tampouco consegue copiar porque dela só há um exemplar (rsrs). Ao final, convido você, leitor que acompanha a nossa coluna, a mergulhar na obra dessa autora.
 
CULTURASSS - Vamos começar falando desse livro inédito que você acabou de ser premiada com o selo de literatura João Ubaldo Ribeiro? A propósito, parabéns pela conquista!
NÍVIA MARIA - Ah, obrigada! “A paixão dos suicidas" é uma narrativa ficcional entre o conto e o romance, pela sua extensão poderia ser considerada uma novela, mas quando a compus não me importei muito com gêneros, inclusive ela é entrecortada por poemas e pequenas narrativas não-lineares. Por isso, a inscrevi no Selo João Ubaldo Ribeiro na “Categoria Livre”. A narrativa apresenta as peculiaridades e desafios de fortes personagens femininas: Laura, Beatriz e Maria Eduarda, ao mesmo tempo em que conta a história de Conrado, um escritor que saiu do interior do estado da Bahia para morar em Salvador e, na capital baiana, constituiu uma família que se apresenta em desintegração.

A situação na qual se encontra é consequência não apenas de seu comportamento autocentrado, mas também das angústias pessoais e profissionais que carrega consigo, entre elas, a lembrança de seu pai e a missão da qual se sente encarregado. As personagens femininas vão impactando a trajetória de Conrado e, ao longo da narrativa, suas histórias vão se conectando e cumprindo um importante papel na trama. Muitos desencontros, físicos e psíquicos, marcam o enredo cheio de poesia e procuras.

CULTURASSS - Uau! Instigante. Vamos esperar, então, pela publicação dessa obra inédita. E as outras obras?
NÍVIA MARIA - Comecei com “Invisibilidade” pelo MAC, 2001. O MAC , inclusive, na figura de Edson Machado, foi muito importante para impulsionar não só minhas primeiras publicações, mas também meu lado de declamadora. Depois lancei, também no MAC,  “...para não suicidar”, que é um livro de contos lançado pelo Littera, em 2006. Esse livro foi relançado em 2015 pela editora Mondrongo. Em 2008, fui premiada pelo Prêmio CDL de literatura, que publicou o livro de poemas “Escondedouro do Amor e Outros Versos sob a Espera”. Em 2013, publiquei outro livro de poemas: “A Morte da Amada e Outros Poemas Rasgados” pela Mondrongo. Até então essas são minhas obras publicadas. Poemas meus podem ser encontrados também na “Coletânea Prêmio Off Flip” (Selo Off Flip, 2015) e nas antologias “Arcos de Mercúrio” (DiaboA4, 2015) e “Cantares de Arrumação” (Mondrongo, 2015). Pela internet, tenho poemas postados no Mapa da Palavra, no Escritoras da Bahia e no Projeto Oxe.

CULTURASSS - E os prêmios?
NÍVIA MARIA - O primeiro veio através do Festival de Declamação Antonio de Castro Alves (2002, 2012 e 2013). Depois, fui premiada pelo Festival Metropolitano de Música Vozes da Terra, Feira de Santana, BA (2007 e 2013), pelo Prêmio de Literatura da CDL (2008) e, agora, pelo Selo Literário João Ubaldo Ribeiro (2017).


Festival Metropolitano de Música Vozes da Terra

CULTURASSS - Fiquei curiosa pra saber como a sua relação com a literatura começou e como se transformou no seu ofício.
Quando eu comecei a declamar, tinha apenas 14 anos. Estudava no ensino técnico de contabilidade, mas era uma leitora muito voraz, principalmente de literatura, e comecei a memorizar tudo o que lia. Na época, só declamava para familiares e amigos mais próximos em encontros mais íntimos. A partir de 1999, quando passei no vestibular para Letras Vernáculas da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), descobri outros colegas amantes da poesia e pensamos em montar um grupo de declamação já no primeiro semestre da graduação. Daí surgiu o chamado Os Bocas do Inferno, composto inicialmente por oito integrantes todos colegas de sala: eu, Lucifrance Castro, Silvério Duque, Tito Marcos, Denilson Santos, Eva Dantas, Ione Carla e Cleberton Santos.

No segundo semestre, o grupo atuava na própria UEFS (RU, PAFs, pontos de ônibus, corredores e afins) e em diversas outras instituições, participando de vários eventos, principalmente os acadêmicos, como congressos, colóquios, Encontros dos Estudantes de Letras, além de lançamentos de livros. Um momento importante foi nossa participação na Bienal da UNE (União Nacional dos Estudantes) no Rio de Janeiro. Até circulamos por outros estados brasileiros como São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Com o tempo, as pessoas foram saindo do grupo e eu permaneci com Lucifrance Castro e Tito, depois só eu e Luci. Nós declamávamos poesias de autores consagrados e desconhecidos, locais, nacionais e internacionais e poemas de nossa própria autoria em diversos pontos da cidade que morávamos (Feira de Santana, BA) como restaurantes, pontos de ônibus, dentro dos ônibus etc. Na academia, acabei me especializando em Literatura, me tornei professora de Literatura e produção textual e comecei a publicar meus primeiros livros de poesia e meus primeiros contos. E daí não parei mais.

CULTURASSS - Você também passou a compor músicas?
NÍVIA MARIA - Exato. Em 2007, o compositor Paulo Akenaton me incitou a compor. Ele musicou um poema meu e, a partir de então, eu passei a interagir mais com a parte musical. Depois, passei a atuar também como letrista e a compor melodias. Posso dizer que a minha primeira apresentação literomusical foi em 2007, quando ganhamos primeiro lugar no Festival Vozes da Terra com a canção “Soneto Que Não Queria Existir”. Paulo musicou, Karla Dias interpretava a canção e eu declamava um soneto no meio da música. Antes desse episódio, declamava sem acompanhamento musical ou canção. Posso dizer que foi em 2007 que comecei a explorar com meus amigos este formato literomusical enquanto modalidade artístico-cultural em Feira de Santana.

CULTURASSS - Mais alguém atuava com este formato nessa época, na cidade?
NÍVIA MARIA - Olha, que eu conheça não. Antes dos Bocas, lembro de Araylton Públio declamando poemas no MAC, o que muito me impactou e estimulou, e também de Patrice de Moraes, nosso veterano e amigo, que declamava seus poemas e muitos de Augusto dos Anjos, Drummond. Assim como eles, claro que existiam mais pessoas que declamavam, mas geralmente era o pessoal do teatro ou declamações individuais. Eu desconheço que tenha havido na Feira de Santana de 1999 outro grupo formado exclusivamente para declamação de poemas. Voltado apenas para essa atividade, só mesmo “Os Bocas do Inferno”, produzíamos os esquetes apenas de poemas, existíamos em função deles.

Quanto ao formato literomusical, ele surge em minha vida a partir de 2007 quando fui instigada por Paulo Akenaton a participar da apresentação do Vozes da Terra. Depois, declamei alguns poemas com o grupo Arranjos, composto por Paulo, Silvério e Gabriel Ferreira. Como “Os Bocas” tinham se desintegrado com a saída de grande parte dos integrantes, eu comecei a explorar o formato literomusical de forma mais profunda. Passei a fazer apresentações com Paulo, ele tocava violão e cantava e eu declamava os poemas, reproduzíamos o que tínhamos feito no Vozes. Maria Bethânia era para nós um exemplo dessa união entre poesia e música.


Grupo de declamação Os Bocas do Inferno

CULTURASSS - Você também atuou no teatro, não foi?
NÍVIA MARIA - Em 2009, com o espetáculo “Eu sei que vou te amar”, direção de Marcos Pérsico, aderi de vez ao formato literomusical. A peça contou com grandes participações, músicos excelentes como Flaviano Gallo, na bateria;  Gilmar Araújo, na  guitarra; Silvério Duque, na clarineta; Cartre Sans, no piano e voz; Karla Dias, na voz; e, claro, Paulo Akenaton na direção musical, na voz e no violão, além da participação de Lucifrance Castro que continuava declamando comigo. Poemas e canções do Vinicius de Moraes entrelaçados. Foi uma temporada e tanto no Teatro da CDL! Minha primeira apresentação pensada para ser literomusical, com início, meio e fim, tema e formato bem definidos.


Peça "Eu Sei Que Vou Te Amar"

CULTURASSS - Na pesquisa que o Culturasss fez, notamos que Os oHomeros foi o primeiro grupo literomusical de Feira de Santana, confere?
NÍVIA MARIA - Em 2010, conheci Cid Fiuza e de pronto criamos uma amizade que se transformou em parceria artística. Passei a declamar acompanhada de sua guitarra. Depois, formamos juntos o “Grupo Literomusical Nívia Maria Vasconcellos e os oHmeros”. Que me lembre, então, foi o primeiro grupo de Feira que carregava em seu nome o termo literomusical. O primeiro grupo fechado completamente nessa proposta na cidade. Isso foi muito importante porque ajudou a divulgar essa modalidade e já comunicava que nossa proposta era diferenciada: a poesia não era opcional ou ocasional, ela era parte significativa do show.

Eu e a cantora Vênus Carvalho performatizávamos no palco, eu declamando, ela cantando numa interação muito grande. Cid fazia guitarra e violão e era responsável pela direção musical. Anselmo Roberto comandava o contrabaixo; Cesinha Miranda, a bateria, quando as apresentações eram do formato mais completo do grupo. Fizemos Bienal do Livro da Bahia, algumas festas literárias, diversos saraus e eventos em geral, até mesmo bares, o Cidade da Cultura sempre nos acolhia, fizemos algumas temporadas por lá.

A proposta não era apenas colocar uma poesia aqui outra acolá entre músicas, nem poesia e músicas alternadas ou sucessivas, era mais uma jogo criativo que envolvia temáticas, acordes, timbres, ritmos e sobretudo palavras. A poesia era a base do grupo, a partir dela que as músicas surgiam. Ela não floreava a apresentação musical, mas dialogava com ela.



Os oHomeros, primeiro grupo literomusical de Feira de Santana, BA.

CULTURASSS - Você continua apresentando este formato até hoje?
NÍVIA MARIA - Sim, mas em outro projeto literomusical que começamos em 2013, o Mousikê e Poíesis. Uma apresentação literomusical que entrelaça música e poesia, colocando a palavra, tanto a cantada quanto a falada, em evidência. Durante a apresentação, a oralidade é tratada como performance com o objetivo de ampliar o alcance da comunicação poética em sua íntima relação com a comunicação musical. Com um repertório diverso, a apresentação inclui músicas e poesias autorais, evidenciando, sobretudo, a produção de autoria feminina, com temáticas que envolvem o social, a mulher e questões que perpassam o cotidiano, como o amor, o tempo, a saudade e o erotismo. Este projeto é composto por mim, pela cantora e compositora Dayane Sampaio e pelo músico Cid Fiuza, que é também nosso diretor musical. “Brincamos” com as músicas e os poemas, cortamos, costuramos, buscamos reorganizar de forma criativa, fazemos novos arranjos, jogamos com as palavras, trabalhamos com elementos incidentais.

Às vezes, declamamos poemas que só são conhecidos em sua forma musicada; outras vezes, musicamos poemas, confundindo os gêneros. Trabalhamos muitas poesias e músicas autorais, inclusive. Este diálogo, e até mesmo confronto, da música instrumental e da canção com a poesia (ou com a literatura em geral), mais do que a mera junção de uma com a outra, é o que constitui a base de nossas apresentações. E é essa mistura, às vezes harmoniosa, às vezes dissonante, mas sobretudo equilibrada e criativa, entre música-canção-poesia que entendo e pratico como formato literomusical.

Inclusive, quero dedicar agradecimentos a Viviane Matos, na época à frente do espaço de cultura Mandala, que tão bem nos acolheu e onde apresentamos periodicamente o show Mousikê & Poíesis no projeto "Quintas Versadas". Foi uma fase importante e muito positiva para nós. Paralelo ao Mousikê & Poíesis, projeto no qual atuamos até hoje, fiz parte também do projeto Alma com Dayane Sampaio e a pianista Amanda Queiroz, neste caso, com músicas predominantemente instrumentais.



Mousikê & Poíesis no Mandala

CULTURASSS - Como você vê essa difusão de grupos e artistas atuando hoje com o formato literomusical em Feira de Santana?
NÍVIA MARIA - É preciso ter a consciência de que o formato literomusical é importantíssimo por ser uma forma eficaz de divulgar os poetas e as suas produções e incentivar a formação de novos leitores de poesia e (por que não?) de novos poetas. Ao realizar esse trabalho é bom ter em mente essa responsabilidade, a ideia é não ser apenas um entretenimento. Estou acompanhando outros projetos que também estão trazendo o termo “literomusical” em sua algibeira. Fico muito feliz que essa modalidade esteja se intensificando em Feira de Santana. Paulo mesmo está atualmente com um projeto Literomusical chamado Mar de Miçangas. Ainda não tive a oportunidade de assistir, mas, confiando na sensibilidade e talento de Paulo, deve estar sensacional.

CULTURASSS - Para encerrar essa entrevista, gostaria que nos contasse quem foram os autores que mais influenciaram o seu fazer literário e quais os que você mais gosta.
NÍVIA MARIA - Conheci a literatura através dos compêndios escolares. Então, os primeiros poetas que mais me influenciaram foram os que estavam lá nesses livros: Castro Alves, Cruz e Souza, Ferreira Gullar, Drummond, Vinicius, Cecilia Meireles. Fernando Pessoa e José Régio foram os que mais me marcaram. Poderia dizer que eles me influenciaram a começar a escrever, comecei tentando imitar uns e outros. Mas o que mais estimulou a minha escrita e me ajudou a desenvolvê-la foi o contato direto com outras pessoas que também escreviam. Meus colegas e amigos, já na universidade, foram meus grandes influenciadores, é como se passasse a escrever para eles, a partir do crivo deles, esse tipo de amizade crítica é muito importante. Não posso deixar de dizer que ver meu pai e sua máquina de escrever também era mais que um incentivo, um exemplo.

Quanto aos autores que mais gosto, adorava ler Florbela Espanca, Sylvia Plath, Emily Dickinson. Destaco Hilda Hilst, ela afetou de forma intensa e importante a minha forma de escrever, apesar de agora já ter me desgarrado mais dela. Fernando Pessoa, principalmente seu livro do Desassossego, e seus heterônimos também foram muito impactantes. Tem poemas de Bruno Tolentino que acho incríveis, sempre releio. "Ao Divino Assassino" me capturou por muito tempo. Gosto muito de ler também meus contemporâneos, sempre é bom deixar a escrita passar por mudanças, por renovações... é um constante aprendizado.

Onde comprar a obra de Nívia Maria Vasconcellos?
Apenas dois livros estão disponíveis para venda: "A Morte da Amada e Outros Poemas Rasgados" e "Para Não Suicidar". Os outros estão esgotados. Estas duas obras podem ser adquiridas através da própria autora pelo WhatsApp 75 98372.5225 com envio pelo Correio (Recomendação do Culturasss), pelo site da Editora Mondrongo, pelo site Estante Virtual ou, ainda, na banca da Associação Feirense de Letras localizada no Mercado de Arte Popular de Feira de Santana (BA).


 




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